O homossexual ainda não é aceito no Brasil

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O homossexual ainda não é aceito no Brasil

Mensagem  criss em Qui Mar 20, 2008 9:25 pm

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“O homossexual ainda não é aceito no Brasil”
RODOLFO BORGES - Da Secretaria de Comunicação da UnB - Rodrigo Dalcin/UnB Agência



No começo deste ano, a Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo aplicou, pela primeira vez, sua lei estadual contra homofobia, criada em 2002. No dia 15 de janeiro, o técnico de laboratório Juliano da Silva, de 27 anos, foi multado em R$ 14,8 mil por ter xingado e agredido o industrial Justo Favaretto em novembro de 2006. De acordo com o processo, Silva atirou uma lata de cerveja contra Favaretto, deu um tapa em seu rosto e o chamou de “veado”.

Mais ou menos um mês depois, precisamente no último dia 12, o presidente da associação que organiza a Parada Gay de São Paulo foi amarrado, agredido e ofendido durante um assalto à sede da entidade. A ação foi interpretada por alguns líderes de representações gays como um crime de intolerância e, junto com a multa aplicada em São Paulo, trouxe à tona, mais uma vez, a discussão sobre a condição dos homossexuais na sociedade brasileira.

“Existe uma impressão de que as coisas estão mudando em todo o país, de que há mais aceitação, mas ela é falsa”, alerta o psicólogo Roberto Menezes de Oliveira. Doutor em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), Oliveira acredita que essa situação só vai mudar quando uma parcela maior da população tiver acesso à educação formal. “Tudo se resume a uma questão de escolaridade. As pessoas mais cultas, que tiveram mais acesso à educação, tendem a ser mais flexíveis”, considera Oliveira, que é professor da Universidade Católica de Brasília (UCB).

Na entrevista abaixo, o psicólogo chama a atenção para a negligência da sociedade brasileira e dos grupos gays em relação aos homossexuais idosos, diz que a religião é utilizada como argumento contrário à homossexualidade por pessoas que se incomodam com a diferença e defende que a criação de crianças por pais gays é tão boa quanto a feita por heterossexuais. “O que define um bom pai e uma boa mãe não é a sua orientação sexual”, garante.

UnB AGÊNCIA – Lidar com a homossexualidade, hoje, é mais fácil para o homossexual?
OLIVEIRA – Depende. Se o homossexual percebe sua condição em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro ou em qualquer outra grande cidade, ele terá um tratamento diferente de quem se percebe homossexual em Mombaça, lá no interior do Ceará. A diferença é imensa. Existe uma impressão de que as coisas estão mudando em todo o país, de que há mais aceitação, mas ela é falsa. Tudo se resume a uma questão de escolaridade. As pessoas mais cultas, que tiveram mais acesso à educação, tendem a ser mais flexíveis. E, ainda assim, estão longe de um patamar de aceitação. Elas apenas aumentam o patamar da tolerância, e isso é bem diferente. Uma coisa é ser aceito, outra é ser tolerado.



“Existe uma impressão de que as coisas estão mudando em todo o país, de que há mais aceitação, mas ela é falsa”


UnB AGÊNCIA – Uma pesquisa de comportamento mundial feita recentemente pelo Pew Research Center, dos Estados Unidos, mostrou que 65% dos brasileiros acham que a homossexualidade deve ser aceita. A taxa de rejeição aos homossexuais no Brasil seria de apenas 30% (a quinta menor do mundo). Contudo, os autores do estudo ressalvam que a pesquisa foi realizada apenas em áreas urbanas.
OLIVEIRA – Isso é crucial. Quem compõe esses 65%? Existem, no mínimo, dois “brasis”. Um escolarizado e urbano, e um interiorano e sem educação formal. Quando o homossexual percebe sua condição na cidade, ele tem pares para conversar. No interior, isso é muito difícil. Além disso, uma coisa é a pessoa afirmar que aceita a homossexualidade. Agora, experimente perguntar se ela compartilharia um chuveiro de academia com um colega homossexual. A resposta pode mudar.

UnB AGÊNCIA – Então ainda não se pode falar em aceitação da homossexualidade no Brasil?
OLIVEIRA – Não. Confunde-se muito visibilidade com aceitação. Os grupos de homossexuais, bissexuais e transgêneros se organizaram em uma militância, e forçam uma visibilidade, buscando essa aceitação. Mas quando alguém promove um “beijaço”, não quer dizer que as pessoas estão consentindo. Muitos estão virando as costas ou xingando. A visibilidade do “beijaço” é confundida com a idéia de que as pessoas estão mais abertas. Mas esse tipo de manifestação é apenas um caminho que está se trilhando. Em termos estatísticos, só se pode falar em tolerância. A melhor prova de aceitação é não tematizar a questão sexual. Ninguém chega para um heterossexual e pergunta como vai a questão sexual dele.

UnB AGÊNCIA – O senhor enxerga boas perspectivas nesse sentido?
OLIVEIRA – Eu sou otimista. Para concorrer no mercado globalizado, o Brasil tem de educar a população, e, junto com essa educação, vem a maior tolerância com o diferente. E o movimento não pára. É um desafio, principalmente para quem já tem acesso à cultura, à educação e à informação. Os meios de comunicação ainda passam uma visão estereotipada dos gays em novelas e programas humorísticos. É aquela visão da “bicha”, que faz parte de um arcaísmo da mentalidade brasileira. Só que agora eles também mostram uma representação moderna, quando divulgam as paradas gays, por exemplo.

UnB AGÊNCIA – Manifestações como paradas gay não reforçam alguns desses estereótipos?
OLIVEIRA – Essas manifestações têm aspectos positivos e negativos. De fato, nem todo homossexual é daquele jeito ou vai para cima de carro de som, de sunga, rebolar. Nem todos têm corpo, mentalidade ou desejo para isso. Assim como na heterossexualidade, existe uma diversidade de tipos na homossexualidade. Mas as pessoas querem pegar o sujeito e colocá-lo em uma das representações. Quando se fala em homossexual, as pessoas menos educadas pensam no “viadinho”, na “bichinha”, e confundem com travesti. Os mais educados, com nível superior, vão pensar naquele homossexual que cuida do corpo, que freqüenta boates. Mas existe o homossexual cidadão comum, que não demonstra sua sexualidade e nem quer. Há muitos homossexuais que não se reconhecem na parada gay. Não é que eles sejam contra o movimento político, mas ele não vai porque não se vê representado.



“As pessoas mais cultas, que tiveram mais acesso à educação, tendem a ser mais flexíveis”

UnB AGÊNCIA – Mas os próprios movimentos indicam uma unificação dos gays em um grupo à parte.
OLIVEIRA – Sim. Eles tentam diversificar, mas não conseguem. Muitos homossexuais ficam de fora. Onde está o homossexual idoso? Eu não os vejo nas paradas gays nem nos noticiários. Ele só aparece como a “tia velha”, se for afetado, e não como um idoso com experiência de vida.




“Quando o homossexual percebe sua condição na cidade, ele tem pares para conversar. No interior isso é muito difícil”

UnB AGÊNCIA – Em todo o mundo, grupos religiosos prometem “reabilitar” homossexuais. E, de fato, membros desses grupos costumam dar depoimentos sobre a cura pela religião. Existem ex-gays?
OLIVEIRA – Eu trabalho com a concepção psicodinâmica da personalidade, e, sob esse ponto de vista, é muito difícil se falar em ex-gay. O que pode acontecer é uma renúncia voluntária, ou sob pressão, da atuação sexual. O mesmo ocorre com heterossexuais que se engajam em uma religião e renunciam à atuação da sexualidade, mas os desejos heterossexuais permanecem lá. Eles vão lidando com isso porque fizeram uma opção consciente e institucional dentro de um movimento. Então, principalmente dentro de grupos religiosos, existem depoimentos desses “ex-gays” e “ex-lésbicas”, mas isso não significa que eles abandonaram essa condição. Mas também existem depoimentos de pessoas que fracassaram nesse projeto, e isso não é muito divulgado, apesar de chegar para nós, nos consultórios e nas clínicas.

UnB AGÊNCIA – Esse tipo de intervenção, feita principalmente por grupos religiosos, não torna as coisas mais difíceis?
OLIVEIRA – Sim. Muita gente acredita, por algum tempo, que deixou de ser gay, mas “dá com os burros n’água”. E esse processo é muito doloroso, porque a expectativa que se cria dentro da família e de seu grupo religioso, muitas vezes, não é correspondida.

UnB AGÊNCIA – O maior entrave para a aceitação da homossexualidade é a religião?
OLIVEIRA – Não. Um jovem que se percebe homossexual e vive em uma família não-religiosa pode ter mais dificuldades do que alguém que foi criado por uma família religiosa. A religião não é o único parâmetro de fundamentação do preconceito. Ela ajuda, mas não é o único. Nós, brasileiros, vivemos em uma sociedade extremamente hierárquica, que tem muita dificuldade de conviver em uma horizontalidade, em uma igualdade. É uma sociedade muito vertical, e isso cria uma intolerância com a diversidade. O brasileiro já tem um formato limitado na cabeça: casamento, concurso público, um projeto de vida, filhos (geralmente um casal), e, quando algo foge a isso, ele se assusta. Essas pessoas têm uma extrema intolerância para lidar com o diferente, não apenas em relação à sexualidade. Qualquer diferença no padrão é difícil de lidar. E, às vezes, vão buscar argumentos para justificar a intolerância à diferença em vários lugares, inclusive na religião. Isso dá a impressão de que a religião é a principal responsável pelos preconceitos, mas não é. Claro que há pessoas que acreditam nos dogmas da sua religião e o usam como argumentos fortes. Mas a maioria usa mais como argumentação. É difícil contra-argumentar com Deus.

UnB AGÊNCIA – Por outro lado, a religião, na maioria das vezes, também é negada aos homossexuais.
OLIVEIRA – O homossexual se isola, ele sai da igreja. Via de regra, é isso que acontece. A pessoa pode até ter uma identificação com os princípios religiosos, mas quando chega nessa questão, ela não pode deixar de lado – com exceção daqueles que têm vocação, que renunciam ao desejo. Então o gay se afasta e vai viver sua religiosidade de outro jeito. Contudo, já existe uma igreja aqui em Brasília, por exemplo, que aceita. Ela foi criada por homossexuais para que eles pudessem viver sua religiosidade, por conta de uma particularidade da sua sexualidade.



“Assim como na heterossexualidade, existe uma diversidade de tipos na homossexualidade”

UnB AGÊNCIA – Um dos principais argumentos daqueles que se opõem à adoção por casais gays é que as crianças não receberão uma boa educação em uma casa provida por dois pais ou duas mães. O senhor concorda?
OLIVEIRA – Não. O que define um bom pai e uma boa mãe não é a sua orientação sexual. Antes de tudo, é preciso se perguntar qual é a educação correta. Freud dizia que não importa a forma como você fizer, vai dar sempre errado. A educação é idealizada. Nós queremos que os filhos façam certas coisas, mas eles fazem de outra forma. A educação por homossexuais é diferente, claro. Só que esse mal-estar com a diferença é característico do brasileiro. Em outros lugares, acha-se bom que as crianças convivam com filhos de negros, asiáticos, gays. Mas aqui, não. Basta olhar os livros escolares para ver que eles fazem menção à família clássica e às alternativas desse modelo. Isso é um problema, porque fica o ideal de pai, mãe, casal de filhos e empregada, de preferência negra. Isso está errado, é preciso mostrar o leque todo. Existem famílias de um pai, de uma mãe, de pai e mãe, etc. O fato de ser criado por um avô ou uma avó também é diferente. A questão é que a diferença não é ruim.

UnB AGÊNCIA – Algumas das pessoas contrárias à idéia da adoção por homossexuais também argumentam que pais gays influenciariam a orientação sexual de seus filhos.
OLIVEIRA – Os gays costumam responder a essa idéia dizendo que a grande maioria dos homossexuais é filho de pais heterossexuais. Essa é uma resposta clássica. Além disso, os pais entram como modelo na conformação sexual de uma pessoa, mas existem fatores genéticos e outras questões conformadoras. Alguns países já fizeram pesquisas sobre o assunto. De acordo com um estudo francês, a influência dos pais nisso é insignificante. A maioria das crianças adotadas por homossexuais nesses países é heterossexual. E, apesar de tudo isso, eu questiono: e daí se for homossexual? Basta ele ser um cidadão que respeita o direito dos outros. É preciso saber acolher e instrumentalizar a criança. Não importa se a pessoa é criada por um travesti, por um homossexual ou por um pai adotivo. Eles têm de dar o peixe à criança e ensiná-la a pescar.

UnB AGÊNCIA – A tecnologia atual permite, a quem tem condições financeiras, mudar de sexo por meio de operações e administração de hormônios. Em decorrência disso, começaram a surgir casos de transexuais gays. No caso de um homem, seria alguém que nasceu com o sexo masculino, mudou para o feminino e passou a se relacionar com mulheres. Essa possibilidade de mudar de sexo não aumenta a confusão de quem tem dúvidas acerca de sua condição sexual?
OLIVEIRA – Não. É preciso diferenciar transexual de homossexual. O transexual tem a convicção de que é do sexo oposto, e que seu corpo está errado. Então, ele tenta adequar esse corpo o máximo possível à sua identidade sexual – e esse é um processo muito doloroso e lento. É possível ter a convicção de que você é homem, independente da sua orientação sexual, que pode se direcionar para homens, mulheres ou homens e mulheres. A homossexualidade é apenas a orientação do desejo sexual. É possível que um homem tenha a convicção de ser mulher, mude seu corpo para isso, e, ao mesmo tempo, se interesse por uma mulher. Mas isso tudo é muito complexo, porque mesmo o que é masculino e feminino muda com o tempo.



“O que define um bom pai e uma boa mãe não é a sua orientação sexual”

UnB AGÊNCIA – Militantes da causa gay defendem que alguns dos termos utilizados para se referir aos homossexuais deveriam ser mudados, para que as referências e eles fossem mais fiéis a sua condição. Por causa disso, foram cunhados termos como homoafetivo ou homoerótico para substituir “homossexual”. Esse tipo de iniciativa pode contribuir para a aceitação dos gays?
OLIVEIRA – Pode. Essa iniciativa já é um espelho de que existem diferentes olhares e nomeações para um mesmo fenômeno. Mas, infelizmente, no Brasil, isso ocorre apenas dentro da academia. Dentro das UnBs, Católicas e universidades federais da vida. Se você perguntar para uma pessoa qualquer o que ela acha do homoerotismo, ela não vai saber responder, porque essa não é a linguagem que o povo fala. Mas, dentro da academia, eu entendo que há um esforço para contemplar a diversidade sexual. O termo mais problemático é “homossexualismo” . O sufixo “ismo” é de doença, como em reumatismo. E a homossexualidade caiu do código nacional de doenças há muitos anos. Quanto aos outros termos propostos, mais gente vai ter acesso a eles com a expansão da educação.
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